Dark Souls III – As Chamas se Apagam [Análise]

abril 12, 2016
Categoria: Análise
0 4752 1
Dark Souls III – As Chamas se Apagam [Análise]

   Há aproximadamente de 2 anos Dark Souls 2 foi lançado. Pelo que me recordo, apesar de Hidetaka Myazaki estar afastado da produção de um modo geral (pois já trabalhava no excelente Bloodborne), a expectativa era, obviamente, muito grande. Qualquer um que acompanhou o ciclo de vida deste jogo sabe que apesar de não ser um fracasso de vendas, ficou muito abaixo da expectativa para o público exigente que vinha sedento após Dark Souls (2011). E o que mais me surpreende é como alguns dos pensamentos que me ocorreram quando joguei o segundo titulo da serie voltaram à minha cabeça enquanto jogava o terceiro.

   Não, com certeza Dark Souls III não é igual ou pior que o seu antecessor. Mas como esperado, as expectativas são bem altas, e infelizmente me deparei com diversos aspectos que desanimam um pouco quando botamos as mãos em um título tão esperado.

Dark-Souls-3

 

   Quero começar deixando algo claro: o jogo é, acima de tudo, um bom jogo. Gráfico, jogabilidade, aspectos técnicos em geral; tudo está “redondo”, não há uma falha grave a ser apontada. Mas para a série que mudou a maneira como eu jogo e penso sobre videogames, isto é pouco, e eu quero explicar o que exatamente me desapontou.

   Um dos pilares da chamada série Souls é o “level design”. O fato de que não temos um mapa do jogo não é uma decisão qualquer, ela vai de encontro ao fato de que o mundo de DS sempre faz sentido fisicamente e geograficamente. Isto significa que quando vc anda por uma floresta, ou por dentro de uma masmorra por diversos minutos, e tem a impressão de que estava sempre “subindo”, geralmente isto se prova verdade; e o jogo faz questão de demonstrar isto ao nos dar algum atalho (pode ser uma porta, elevador, ou algo parecido) que cria conexões entre ambientes visitados anteriormente, e mais importante, serve como uma recompensa. Esta é uma maneira de dizer para o jogador que: 1. ele está no caminho certo; 2. ele superou desafios e avançou no jogo; 3. ele pode agora, como fruto do seu esforço, beneficiar-se deste atalho para transitar rapidamente entre determinadas áreas. Eu expliquei tudo isto para dizer que sim, Dark Souls 3 possui estas características, mas ficou óbvio que a equipe da From Software não teve tanto tempo disponível para desenhar estes mapas, pois nem todos eles são tão inspirados. Podemos lembrar que nem todos os mapas de DS são perfeitos também, mas mesmo assim, nunca perdíamos a sensação de que aquele mundo é totalmente “coeso”, que tudo estava conectado, inclusive fazendo sentido em relação à história que é contada. Já em DS3, em determinado momento eu abri um atalho cujo primeiro pensamento foi “pra que raios serve isso??  Porque eu vou querer voltar aqui?”. Ou seja, começa a ficar aparente que o lançamento apressado do jogo teve sim sua influência negativa. Ainda sobre o mundo e os mapas, eles não são lineares – de jeito algum – inclusive DS3 tem alguns dos cenários mais bonitos já vistos na série, mas com certeza houve um esforço para, de certa forma, deixar mais claro qual seria o caminho mais curto para avançar, o que eu considero na verdade um mérito. Quem gosta de explorar muito e achar novos segredos, vai ter bastante material para se divertir.

 

Dark-Souls-32

 

    O outro aspecto que define a série Souls é a história, a mitologia, e o mundo: já em Demon Souls, Myazaki e equipe conseguiram criar um ambiente único: um mundo que parece tão real, lúcido, palpável, e ao mesmo tempo abandonado há muitos séculos. A sensação de solidão do seu personagem fazia todo sentido conforme a história, e ajuda a resolver um problema de dissonancia muito comum: aquele cenários não precisava estar lotado de pessoas, inimigos e outros, porque simplesmente isto faz mas sentido. E talvez o mais importante, seja a sensação sempre presente de apreensão, até medo. Raramente você sente-se seguro, ou sob controle da situação. Seu personagem é apenas mais um guerreiro solitário, em um local onde tanto outros sucumbiram tentando o mesmo caminho. O ponto importante aqui é que cada jogo da série deve apresentar-se como algo novo, mesmo sendo uma continuação. A impressão que Dark Souls 3 passa é que a equipe decidiu pisar em solo seguro – exatamente o contrário do proposto por seus jogos. Os cenários são grandes? Ok, são. Os atalhos estão lá? Sim, estão (mas alguns não são muito bons). Então qual o problema? O problema é que falta INSPIRAÇÃO. Dark Souls foi um jogo que arriscou, quis ser grandioso e foi. Ganhou fama com uma comunidade muito dedicada porque a qualidade está lá, independente do ângulo que você olhe. Provavelmente  alguém  que jogue Dark Souls 3 primeiro goste até mais dele, porque obviamente o jogo está tecnicamente mais aperfeiçoado. Mas para mim, Demon’s e Dark Souls são jogos sobre ser impressionado, surpreendido, tanto com o desafio (dificuldade) constante e exigente, assim como pela construção de um mundo muito melhor do que em tantos outros jogos. E Dark Souls 3 simplesmente não me trouxe este êxtase, pois tudo que ele faz é muito competente, mas não é novo.

  Felizmente, muitos aspectos positivos sobressaem-se, como as lutas de chefe, todas tão diferentes entre si e muito bem desenvolvidas. Se Dark Souls 2 trouxe o dobro de chefes, mas a metade (ou menos) da criatividade, DS3 olha para o seu avô distante (Demon’s) e lembra-se que chefes devem ser diferentes, únicos, cada qual com sua estratégia específica. A qualidade é tanta que era muito comum, após morrer em uma tentativa, eu não saber se eu estava triste pela derrota ou feliz por ter visto uma luta tão bela e única. E para complementar, a trilha sonora continua épica, algumas das músicas estão gravadas na minha mente até agora, seguindo um padrão da série.

   A história é um aspecto mais complexo (e demorado) de se analizar: apesar da premissa básica estar exposta nos trailers e na animação de abertura, amplamente divulgada, os jogadores já sabem que Dark Souls trata-se de um exercício de “arqueologia”: devemos voltar ao mundo do jogo inúmeras vezes, e não só procurar pelos itens e ler sua descrição, mas também correlacioná-los com sua posição no cenário,  assim como a estética dos lugares, dos inimigos e chefes daquele local. Com certeza eu terei mais a falar sobre a história em uma vindoura série de vídeos no canal do Savepoint, mas por enquanto, adianto que achei a história interessante o suficiente para que eu já tenha diversas abas de fóruns, reddit e wikis abertas enquanto escrevo este texto.

   Por fim, Dark Souls 3 entrega exatamente o que foi prometido pela equipe da From Software: um ponto final na saga, e assim como o reino de Lothric, que é o lugar onde os mundos convergem, DS3 é o jogo onde estes anos de Dark Souls convergem. Apesar de não ser um jogo que tenta algo a mais, que arrisca um pouco para surpreender, é um material justo para os fãs da saga que saciam por uma conclusão, e principalmente por (muitas)  referências ao primeiro jogo da série. Praticamente impecável tecnicamente, é um jogo que merece toda a sua atenção. Recomendo!

   PS: para quem é novo na série, eu recomendo fortemente jogar Dark Souls 1 antes do terceiro jogo. O DS3 praticamente perde o sentido se você não conhecer o primeiro jogo. E na verdade, todo mundo deveria jogar Dark Souls 1!

Trailer de lançamento

João Vicente

Outros posts do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *