Odallus – Análise

dezembro 11, 2015
Categoria: Análise
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Odallus – Análise

Quando pensamos em um jogo antigo, principalmente um que marcou nossa infância nos videogames, esta imagem mental é o fruto da interpretação que nosso cérebro cria a partir de diversos estímulos, incluindo a chamada nostalgia (leiam este texto sobre o assunto). E como uma parte do trabalho do cérebro é nos “enganar”, o que acontece é que ao ligar seu velho Mega Drive pra jogar aquela fita que você adorava, pode acontecer um impacto de memória X realidade, e você pode achar que na real o seu jogo favorito era muito ruim.
E outro aspecto muito interessante é como jogos rotulados de “retrô” apresentam-se. Alguns aparentam ser jogos feitos em 2015, com uma ferramenta mais limitada (na interpretação de alguns), outros parecem mais como um jogo antigo rodando em monitores novos; e outros são Odallus. Porque com certeza este é o jogo que fará você questionar-se se ele foi feito na década de 80 e adaptado aos PCs atuais.

Odallus conta a história de Haggis, um guerreiro cujo filho desapareceu, e ao procurar pelo mesmo, depara-se com um conflito entre antigos e novos deuses. É impossível não lembrar um pouco do clima sombrio de Dark Souls, com uma história sendo contada não só pelas falas dos personagens, mas também por pedras (ou tumbas) encontradas no cenário, pelo vendedor de itens (um cara muito suspeito, eu diria) e outros aspectos incorporados na jogabilidade. É interessante como bem e mal confundem-se, apesar de que Haggis é – ao meu ver – um herói no sentido pleno; porém, suas crenças são questionadas ao longo do jogo, apimentando um pouco mais a história.

Sem qualquer intenção de diminuir a importância da história, devo deixar claro – é na jogabilidade que Odallus brilha. A precisão dos controles vira uma arma valiosa nas mãos do jogador que resolve dedicar seu tempo ao jogo, com uma evolução agradável, ficando claro que é você quem está no comando. A cada fase, surgem inimigos diferentes, com padrões de ataque variados e inteligentes, mantendo-nos atento o tempo todo. Ao mesmo tempo, há um forte aspecto de exploração (o famigerado termo “metroidvania” cabe aqui), e quando voltamos à fases anteriores para acessar novas áreas, é fácil perceber a evolução que aconteceu no domínio das mecânicas de batalha.

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Muito importante foi a atenção dos desenvolvedores em não criar um jogo tão difícil que fosse frustrante demais: em Odallus, a exploração é o pilar principal, com fases realmente muito grandes e não-lineares; sendo assim, morrer a cada 10 passos seria um tiro no próprio pé, e a equipe da Joymasher lidou com maestria este aspecto.

Na tela de seleção de fases, podemos ver o número de segredos presentes em cada fase (incluindo power-ups, as tombstones, e áreas secretas). Particularmente, acho esta uma decisão muito inteligente. Você deixa clara a existência dos segredos, mas não revela nada além disso, como onde eles estão, por ex. Isto cria a curiosidade, levando-nos a retornar nos cenários e achar todos segredos.

Para coroar os aspectos destacados, a arte do jogo merece muita atenção. Fazer um gráfico retrô não significa que o designer é preguiçoso, ou não tem habilidade para fazer algo melhor; é uma escolha, uma decisão técnica. A grande questão é como aplicar esta “modalidade” de gráfico no seu jogo: ela está relacionada a outros aspectos do jogo? O gráfico é apenas “pixelado” ou seus elementos (numero de frames, cores, etc) remete à uma determinada época / console / estilo? Exatamente por isso comecei o texto citando como Odallus parece um jogo vindo da década de 80: seus desenvolvedores usaram técnicas específicas para recriar o “gosto” de um jogo da era NES / Master System / Mega Drive. Para reforçar como o estilo adotado não está ali por acidente, podemos notar como as fases possuem excelente variação de gráficos e cores, o design excelente dos chefões, e até um modo gráfico que emula um monitor CRT (com aquela curvatura nas laterias da tela – recomendo!). Estes aspectos foram explicados pelo próprio Danilo Dias neste excelente texto.

odallus-animation

Por fim, Odallus é uma experiência excelente, que alia elementos nostálgicos dos jogos que formaram nossa percepção, com muitas lições de game design aprendidas ao longo dos anos, evitando alguns aspectos potencialmente “frustrantes” de jogo mais antigos.
Recomendo fortemente, e já ficou no meu top 10 2015!

 

Obs: participei de um cast no SaveGame, do Caio Corraini, falando sobre o jogo junto com Jone Santos do Super Amibos. O SaveGame não existe mais (infelizmente), mas acredito que vocês podem encontrar o cast no feed antigo.

Odallus no Steam

Site da Joymasher

 

João Vicente

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